Caetano Veloso voa alto na asa de "Zii e Zie"

Escrito por Sidney Gomes    
Sab, 04 de Julho de 2009

 


Fica difícil escrever qualquer coisa original a respeito de um show que está há dois meses na estrada, e que já passou pelo Rio de Janeiro e por São Paulo. A imprensa já escreveu o que teve de ser escrito, críticos apontaram o que havia para ser criticado e fãs elogiaram o que merecia ser elogiado.

 

 

E assim, já azeitado e maduro - apesar de jovem -, o espetáculo zii e zie, de Caetano Veloso, pousou em Belo Horizonte. A noite de 3 de julho, no Chevrolet Hall, foi quase mágica. Em impressionante forma vocal, Caetano surge no palco junto com os músicos e começa a apresentação com um vinheta de Cole na corda, da banda de pagode baiano Psirico, e Tem que ser viola, do Fantasmão. Imediatamente, ataca a grande surpresa da turnê - A voz do morto, feita especialmente para Aracy de Almeida, e a pedido dela. No meio da canção, a saudação: "Viva o Paulinho da Viola!" Alguém consegue pensar em algo mais original para começar um show de "transambas"?

 

 

Daí pra frente, Caetano faz um show sem concessões. Para "iniciados". Desfia 11 das 13 faixas do CD zii e zie. Entre uma canção nova e outra, pequenas pérolas como Não identificado, Trem das cores, Maria Bethânia (que ele disse ter sido composta no exílio como um grito desesperado de socorro à irmã. A música, no show, é dedicada ao diretor teatral Augusto Boal, falecido este ano, o primeiro a dirigir Bethânia) e Irene, cantada em coro pela plateia. Não por acaso, as duas canções com nomes de irmãs do compositor aparecem juntas no roteiro.

 

 

Emoldurado pelo cenário de Hélio Eichbauer, que colocou uma asa-delta no palco - e uma tela para projeções de imagens da Lapa, de Cuba, cenas de mar e chuva -, Caetano, apesar de evitar seus sucessos, apresentou um show muito mais palatável que o anterior, Cê, de 2006. Se, em Cê, os clássicos eram mais abundantes (Sampa, Desde que o samba é samba, Fora da ordem e London, London), a crueza dos arranjos assustava os mais conservadores. zii e zie é mais melódico, e com a BandaCê (Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes) mais entrosada.


Fotos: Sidney Gomes 

 

 

Fator relevante foi o verdadeiro milagre que os técnicos de som da equipe de Caetano conseguiram realizar no Chevrolet Hall. O som estava impecável (com exceção de pontos mais longínquos) - o que pode ser comprovado no tradicional momento voz e violão. A interpretação de Caetano para Aquele frevo axé, que deu nome ao CD de Gal Costa lançado em 1998, estava completamente límpida. Porém, os técnicos também foram os responsáveis por dois erros inadmissíveis. O primeiro, quando a voz do cantor desapareceu por intermináveis segundos. Depois, quando o som desapareceu por completo. Tudo muito rápido, mas o suficiente para incomodar Caetano.

 

 

Uma arrebatadora e performática interpretação de Eu sou neguinha?, pôs fim à apresentação. Mas, é claro, ele voltou para o bis, quando fez uma emocionada interpretação de Força estranha. E mais uma saudação: "Viva Roberto Carlos!"

 

 

É emocionante poder ver um artista do porte de Caetano Veloso ainda em atividade, e num excelente momento da carreira. Enquanto alguns contemporâneos do baiano optam pela mesmice, Caetano inova. E acerta.

 
  
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Caetano


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